O jantar
Nada, nada, nada tenho dizer sobre Muxoxo Saldanha que possa a diferenciar das cidades vizinhas.
As mesmas roupas perambulam aos cochichos. Os mesmos risinhos debochados das senhoras sérias a desdenhar das outras. As mesmas falácias a voarem pelo ar. Não havia o que se passasse numa das cidades vizinhas que o povo todo não conhecesse, pelo menos duas versões diferentes, ao findar do dia.
Foi lá, em Muxoxo Saldanha, que aconteceu o fato mais inverossímil de toda a redondeza.
Maria Alzaga tirava os rolinhos que pusera nos cabelos na noite anterior e o fazia no sofá próximo à janela. Começou a ouvir o alvoroço. Bocas e vozes alteradas chamaram sua atenção. Correu, com seus rolinhos nas mãos, e muitos ainda presos ao cabelo e disfarçou-se atrás da cortina semitransparente. Esgueirava-se de qualquer olhar mais atento, pôs-se na ponta dos pés e se esticou o mais que pode atrás da cortina. Viu que a aglomeração aumentava do outro lado da praça, onde ficava a mercearia.
As pessoas chegavam como quem tinha saído de casa sem qualquer zelo, como se fora de uma hora para outra, abruptamente. Muitos chegavam despenteados ou mastigando um bocado de comida, outros de pijamas e alguns com apenas um pé calçado, mais adiante outros se abotoando ou amarrando os sapatos. Era algo muito esquisito de se ver.
Maria começou a arrancar os rolinhos do cabelo sem prestar muita atenção. Julgou ter tirado todos, pegou a bolsa e saiu rapidamente. Atravessou a praça quase correndo: queria pegar um lugar bom. A fila crescera assustadoramente e já dava algumas voltas na praça. As pessoas se empurravam e discutiam o lugar na fila.
Os que iam saindo da fila tinham uma cara satisfeita e demonstravam grande pressa. Saiam mudos e realizados. Levavam uma sacola amarela com algo relativamente pesado. A julgar pela aparência poderia ser algo com uns quatro quilos aproximadamente. Ninguém parava. Era intrigante. Uns até corriam.
Dois homens se agrediam pela desonestidade de um terceiro. Rolaram pelo chão sem constrangimentos. Os que estavam próximos gritavam, ora tentando inibir, ora estimulando.
Uma garota, que trajava roupas rasgadas, comentava com a vizinha de fila a quantidade que ia querer.
Vou querer dez quilos. dizia ela ao balconista orgulhosa de estar na frente da outra.
Lamento, senhorita, mas não contávamos com tantos compradores e então fixamos o valor máximo por pessoa em quatro quilos, a fim de atendermos um maior número de pessoas ainda hoje. Seus familiares poderão vir buscar também...
Já estão todos aqui. disse a garota desalentada.
Virou-se e saiu com sua sacola amarela. Tratou de trocar a feição de desalento pela de satisfação para demonstrá-la aos que estavam na fila.
Não demorou muito para o Antunes, dono da mercearia, sair da loja, todo amarrotado.
“Incrível! Não estamos atendendo apenas à população de Muxoxo Saldanha, mas toda a adjacência!” ele pensava, com orgulho em seu próprio sucesso.
Adiantou os passos e pronunciou:
Atenção, senhoras, senhores, conterrâneos, visitantes, é meu dever informar que só temos na casa mais quatrocentos quilos da mercadoria. Estimo que não dará para todos os que se encontram na fila. Informo ainda que receberemos um novo carregamento na próxima semana, e que todos serão atendidos no prazo de sete dias.
Depois do recado de Antunes, os empurrões aumentaram, as agressões ganharam espaço, e o respeito foi esquecido de vez. Pessoas fraudavam escancaradamente, vendiam seus lugares por preços elevados.
Maria Alzaga chorava de nervoso. Além disso, queria urinar, mas não poderia correr o risco de perder o lugar na fila.
Eu só vou querer um pouco. dizia enquanto chorava e urinava por cima da roupa.
Ela não era a única. Sorriu, depois de alguns instantes, realizada com a sua sacola amarela. Respirou fundo e correu para casa. Chegando à sua residência viu que o marido e os cinco filhos a esperavam, sentados à mesa de jantar. Não ousou tomar banho ou trocar de roupa.
Pegou a sacola pela qual tanto sofrera, despejou o conteúdo na pia, lavou-o, temperou-o e deixou cozinhar por três minutos.
Colocou na mesa o prato principal com as guarnições devidas, arroz, feijão e salada. Todos adoraram. E ela, então? Não havia mulher mais bela. Feliz.
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Página atualizada em 23/08/2009.
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