Em busca de uma realidade mais real (por Maria da Conceição Paranhos)
Tatiane de Oliveira Gonçalves, jovem escritora que
agora edita seu primeiro livro, poetisa inédita ainda, apresenta-nos
em sua estréia 18 contos de visão de mundo extremamente curiosa. Mais
que curiosa, singular. A maioria deles beira o surreal e o fantástico,
muitos mergulham no cotidiano, na vida comum – digamos assim – e ali
irrompe o insólito ou, ainda, relatos em que a dita “vida normal”
revela-se fantasmagórica, povoada de seres de fronteira.
No pensamento de Antonio Cândido sobre a natureza
da literatura – na ficção se situa o aparente paradoxo de dar forma à
fantasia, a fim de compreender melhor a realidade. Sendo criação da
fantasia, a narrativa comunica a impressão da mais legítima verdade
existencial.
A narrativa de Tatiane não se constitui em outro
espaço nem em outro mundo – o que acontece é uma alteração no que se
estabeleceu como normal e constituído. Há uma oscilação de alguma
certeza, tornando tênues as linhas que dividem os dois planos: o real
e o fantástico, mundos paralelos a se interseccionarem.
Seus escritos criam o efeito de surpresa, de
dúvida, de estranhamento, de aversão e até mesmo de encantamento.
À surpresa de “Saindo da rotina”, em que a
personagem se defronta com o inesperado e muda sua maneira de enxergar
seu dia-a-dia, seguem-se relatos como o do fim trágico de uma vida
vazia (“Uma mulher”); o modo enigmático do desfecho no conto “Romances
modernos”; a metamorfose sentida pela personagem de “Revirando”; a
perplexidade da criança diante de um mundo alarmante revelado
justamente pela mãe em “Meninice”, a infância bruscamente
interrompida; a transformação de elementos do universo em pessoas –
como em “Lua Lagoana”; de animais em seres pensantes (“Memórias do cão
Isidoro”), enfim, todos os contos extrapolam os limites da realidade
considerada como objetiva.
Nas histórias de Tatiane, há uma quase
imperceptível linha, dividindo a normalidade do não natural, ainda que
não consigamos distinguir com precisão o que é real do que é irreal.
Mas sempre com o traço do estranho imerso no cotidiano, que apenas o
narrador vê.
Em “Receita fúnebre” o defunto
narra suas queixas sobre o que pretendia para seu enterro, e o modo
como foi contrariado, dentro de uma atmosfera de perfeita normalidade
na breve autobiografia que constrói para si à medida que narra. A
causa de sua morte – um choque elétrico numa geladeira desligada –
fica em suspenso. Mesmo porque, no epílogo, declara: “Enfim, pouco
importa. Vou. Sem dor e sem rancor. Não sei porque vim. Não sei para
onde vou. Só sei que vim num dia qualquer e num dia qualquer estou
indo.”.
Os limites entre o que é considerado normal e a
loucura colaboram com a estranheza da coletânea como um todo e criam a
ambigüidade que percorre todos os escritos. A protagonista responde à
filha em “Vizinhança”: “- Ah, eles são muito caretas, bambina!... Só
percebem pessoas de carne e osso, coitados! Gente limitada!”.
Na reflexão mesma da personagem se instala o
insólito das soluções: “‘Já que não consigo caber em mim, transbordo
como um copo pequeno e tudo resolvo’”, pensa Mércia em “O segredo”, em
que também é discutida a questão da loucura vs. normalidade.
É como diz o narrador sobre Osvaldo, personagem de
“O contador de histórias”: “O que mais me intriga é que o Osvaldo tem
histórias para contar todos os dias. Penso que acredita nelas. Mesmo
porque, tudo pode acontecer nesta vida de meu Deus.”.
Todavia, em contos como “Um homem no tempo”, as circunstâncias são,
desde o início, situadas fora desta “vida de meu Deus”. Porém, ainda
aqui, Tatiane demonstra os caprichos da imaginação sob a aparência da
mais absoluta normalidade.
Assim é que o livro de estréia da jovem escritora
demonstra não apenas o seu talento para a ficção, mas para o
riquíssimo veio da narrativa fantástica.
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Página atualizada em 23/08/2009.
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