Cabeçalho da página

Antônio e o espelho

Enquanto Antônio dormia eu buscava arguta em suas pálpebras cerradas, insone que sou, respostas: alma, vísceras, algo que me ajudasse a entendê-lo de verdade. Era fria esta hora, meu corpo nu se arrepiava. Hora sem som, hora indagando, hora madrugada.
Antônio dormia, e eu tentava entrar em seus olhos de paisagens diversas, surpresas grandes e casas vazias.
Disse-me uma vez, em meio às suas galhofas, que havia mudado de casa várias vezes em sua vida. As casas, ora em bairros diferentes, ora em cidades diferentes, tinham cores diferentes. Todas elas. E eu não conseguia compreender o que ele queria dizer com aquilo. Passei noites pensando nas casas coloridas. Acho mesmo que ele sabia que eu ficava intrigada e até fazia de propósito. Contava-me nas horas de penumbra histórias. E com seu sorriso me dava um buquê evasivo da veracidade dos relatos. Seus olhos brilhavam tanto naqueles momentos. Agora fechados, nada queriam me dizer.
A pálpebra tremeu um pouco. Parecia que ia balbuciar algo. Roncou. Antônio não queria ser revelado. Dormia pesado. E eu aflita desejando perscrutar-lhe a alma.
Enquanto o olhava com firmeza, como quem não quer perder nada de uma imagem, ia lembrando o que me havia falado sobre sua vida. Viveu sempre com intensidade os seus amores, paixões, raivas e horrores. Não negava. Detalhava seus casos amorosos extraordinários tão cheios de elementos sensuais e anti-convencionais. Antônio bebia a vida em grandes goles, tão destemido! Se estávamos a conversar ele vinha, de repente:
- Percebe este cheiro?
Eu aspirava com vontade e nada percebia, mas para Antônio havia um cheiro, um som, um vulto, uma sensação só dele e eu ficava do lado de fora como um bicho de estimação a querer subir no sofá. E esta vontade de entrar nele era por si só algo incompreensível para mim mesma. A necessidade da união absoluta me parecia indevida. E inevitável. Sentia-me prisioneira daquele homem tão especialmente indecifrável.
Ele não vinha todas as noites. Era preciso aproveitar-lhe a presença para compreendê-lo. A noite esfriava. Com seu dorso nu, puxava a coberta sem abrir os olhos num sono relaxante. Sua imagem turvava-se um pouco, embaralhava-se ao leve movimento. Um ronco mais. Turvava-se mais e depois, dentro do escuro, restava-me eu nua sob a coberta fina no pequeníssimo quarto espelhado.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

Página atualizada em 23/08/2009.
Melhor visualizada com software livre.